Mídia internacional destaca guinada do Brasil para a extrema direita

Por João Ozorio de Melo

Nos EUA, a mídia que defende Trump consistentemente aprova a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência do Brasil. A mídia que critica Trump todos os dias lamenta o resultado das eleições. Aos eleitores de Bolsonaro, que quiserem ler notícias favoráveis ao presidente eleito, devem visitar os sites da Fox News, The Wall Street Journal e Washington Examiner — todos alinhados com Trump e, agora, com Bolsonaro.

A emissora de TV Fox News, por exemplo, celebra a vitória de Bolsonaro, um “campeão dos valores tradicionais brasileiros”. O The Wall Street Journal aposta que Bolsonaro vai estabelecer uma “nova era de ordem e progresso”. O Washington Examiner declara que Bolsonaro será melhor para o Brasil do que Fernando Haddad seria.

Mas praticamente toda a mídia dos EUA destaca que o Brasil vai dar uma guinada para a extrema direita, como aconteceu em outros países do mundo. E que os grandes perdedores dessa eleição foram a esquerda e o meio ambiente — isso porque um dos poucos assuntos que qualquer eleitor dos EUA sabe discutir sobre o Brasil é a salvação da floresta tropical (a rain forest).

Os eleitores de Bolsonaro que quiserem manter o bom humor não devem ler os sites dos demais órgãos de imprensa dos EUA — críticos ferrenhos de Trump e, agora, de sua reprodução na América Latina, Jair Bolsonaro, chamado de “Trump dos Trópicos”, “Trump Brasileiro” etc. Por exemplo:

Em editorial, o jornal The New York Times diz que é um dia triste para a democracia, quando a desordem e a decepção perturbam os eleitores e abrem as portas para populistas agressivos, grosseiros e violentos (não se referindo especificamente ao presidente eleito, Jair Bolsonaro).

Mas se refere, de uma maneira geral, à eleição de Jair Bolsonaro, o “Donald Trump brasileiro”, um linha-dura da direita com visões repulsivas, diz o jornal.

Em reportagem, o New York Times diz que os brasileiros elegeram um “populista estridente” de extrema direita — mais à direita do que qualquer presidente da região, onde os eleitores escolheram políticos mais conservadores, como os da Argentina, Chile, Peru, Paraguai e Colômbia. Segundo o jornal, Bolsonaro se junta a uma leva de políticos de extrema direita que chegaram ao poder no mundo, como o primeiro-ministro da Itália, Matteo Salvini, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.

“Essa é uma mudança realmente radical”, disse ao jornal o professor Scott Mainwaring, da Universidade Harvard, tido como especialista em Brasil. “Não consigo pensar em um líder mais extremista na história das eleições democráticas na América Latina, que foi eleito.”

O jornal destacou, como ponto positivo, o fato de Bolsonaro ter vencido candidatos com muito mais dinheiro que ele e com muito mais espaço na televisão, valendo-se das mídias sociais, com campanhas populares no Facebook, Twitter, WhatsApp e YouTube.

O jornal The Washington Post disse que a eleição de Bolsonaro, apelidado de “Trump dos Trópicos” pela imprensa inglesa, vai provocar a mudança mais dramática para a extrema direita desde a era da ditadura militar.

O jorna diz que o Brasil vai se alinhar com uma lista de países, como os EUA, Filipinas, Turquia e Hungria, onde nacionalistas da direita convictos chegaram ao poder através das urnas.

O jornal diz que a campanha de Bolsonaro, como a de Trump, prometeu atacar a corrupção das elites políticas, combater com mão de ferro o crime, enquanto demonizava oponentes e polarizava a nação, além de atacar mulheres, gays e minorias raciais.

O jornal afirma que ele defende os “valores tradicionais”, mas já se casou três vezes, para associá-lo à imagem de hipócrita de Trump. Acredita que sua popularidade cresceu, a ponto de se tornar favorito, depois que foi esfaqueado no estômago. E que ele envolve os filhos na política, tal como Trump.

O site BuzzFeed News também destaca a drástica guinada do Brasil da esquerda para a extrema direita. Atribui o fato a uma tendência global de populismo e fanatismo de extrema direita, que tem mais a ver com a economia e questões nacionalistas do que com a política.

Para o site, as críticas que se faz à retórica de Bolsonaro de nacionalismo populista, histórico de sexismo, homofobia, racismo, tendências para o fascismo e associação com grupos evangélicos o alinham com Donald Trump. Porém sua plataforma linha-dura de combate ao crime se alinha mais com populistas como Rodrigo Duterte, das Filipinas (que executa traficantes de drogas).

Trump não faz apologia a ditaduras como Bolsonaro, mas se relaciona melhor com ditadores do que com os aliados democráticos dos EUA. Trump nunca defendeu um torturador, especificamente, o que Bolsonaro fez. Mas já defendeu a tortura, como instrumento de defesa da segurança nacional.

A revista The Economist também dá força à teoria de que Bolsonaro só ganhou maior presença no noticiário porque ele foi esfaqueado em setembro, durante a campanha. Além disso, ele teve mais presença na mídia social do que, por exemplo, Geraldo Alckmin, que tinha 40 vezes mais espaço gratuito na televisão.

A revista afirma que a campanha foi sustentada — e seu governo será sustentado no futuro — pela bancada da “bala, boi e Bíblia”. E que o plano dele de relaxar o controle de posse e porte de arma o coloca na mesma posição de Trump. Eles também se igualam em suas decisões de reduzir as proteções ao meio ambiente.

A revista prevê ainda que sua proposta de reduzir a idade penal não encontrará resistência considerável no Congresso. E afirma que ganhou as eleições não porque os eleitores gostam deles, mas porque odeiam o PT.

A CNN, que critica Trump quase 24 horas por dia, sete dias por semana, e compete com o New York Times e Washington Post pela primazia de ser a oposição mais ferrenha ao presidente mais impopular da história dos EUA para a metade da população e popular para a outra metade (que assiste à Fox News), fez apenas uma curta referência à eleição de Bolsonaro. Disse apenas que ele se parece com Trump, de uma certa maneira, em alguns aspectos. E que ele ganhou porque os eleitores estão irritados com a economia, a recessão, a corrupção etc.

A revista Forbes foi mais moderada. Diz que, em todo o mundo, haverá manchetes dizendo que Bolsonaro é uma ameaça à democracia, tem preferência por ditaduras, é sexista e homofóbico. Mas o fato decisivo foi que ele suscitou uma grande energia entre os eleitores — um fato que só se compara, de certa maneira, à eleição de Lula em 2002.

Para a revista, eleições políticas são feitas de energia emocional crua e raramente de escolhas racionais. Em grande medida, ele ganhou porque transformou a campanha em um confronto entre ele e o PT. Isso lhe garantiu a maioria dos votos.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 29 de outubro de 2018, 9h59

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